não se pode ensinar ninguém a respirar

ir sendo é uma coisa tão misteriosa/ daí estar com

[…] estar com o qualquer, com o contexto qualquer, com o dia qualquer, com as pessoas quaisquer, implica estar, escutar, não impor, não partir dum acesso em que eu já sei o que poderia estar a acontecer. é mesmo sobre largar… mesmo que eu dedique a minha vida toda a estudar alinhamentos, fluxos, fascias, ossos, músculos, até gestão de energias, até coisas mais imateriais. eu não posso trazer isso enquanto informação, penso eu, mas posso dançar com, posso estar experiencialmente na própria descoberta permanente de descobrir, de destapar. quando eu sinto que aquilo que estou a dizer ou a fazer, a dançar, passa por um lugar de “olha isto que eu tenho e tu não tens”, eu fujo. prefiro não dizer. são descobertas quase de criança. essa criança é sempre criança, está sempre a nascer, está sempre a perguntar. […] e eu sinto que a dança tem muito a aprender para além de codificar gestos, para além de codificar técnicas. aquilo que nos prepara, os alongamentos, ou aquilo que nós chamamos aquecimentos, aquilo que nos prepara para a dança não pode ser outro senão a própria dança. e enquanto vais dançando, vais encontrando lugares onde o movimento tem mais dificuldade a passar, tal como os planetas fazem aquela retrogradação de voltar atrás e continuar caminhando, nós também fazemos esta laçada de ah, provavelmente este dedo ou esta densidade gestual está mais adormecida hoje, ou não é hoje que vai acordar. acima de tudo dançar dançando cada dia. e a preparação para a dança é a própria dança. e a especificidade da dança que se vai fazendo dança em cada acontecer não é indiferente. é algo muito especial, que é nutrido por essa escuta profunda do gesto que vai nascendo, e pela possibilidade de ir ouvindo se esse gesto se pode fazer mundo, na singeleza de aparecer sem se constringir em restrições de mercado ou de codificações, “ah, isto não poderia ser assim…” […] é uma coisa de passagem que eventualmente alguns escolhem para si. […] não há nada que eu possa trazer ao mundo, ao outro, que o mundo e o outro não esteja já a gerar em si próprio.

pedras20-don´t feed the meaning _ foto rui miguel

dança palavra respiro sofia n

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