à dança que conheço e (já não) esqueço

Rua dos Fanqueiros, n. 150
Lisboa, Portugal

Dança amada de chegada delicada. Acompanho esta entrada na fantasmagoria da terra. Espero poder te dizer imensas coisas, enquanto isso ouço. 
Um bocado de sede, que desperta as securas. A chegada dos segredos daquilo que se contorce, daquilo que treme, daquilo que é violado. As barrigas dos pés nos degraus dos entreespaços antenam, e o desempoeirar da membrana entremundos começa, encoraja-desanuvia a continuidade.

O que podemos a cada dia, juntas? No trabalho de escuta das espirais do corpo e do movimento chama a atenção uma certa desafinação. Que movimentos aparecem quando se ouve em corpo o espiralesco? Vamos sempre girar? Vamos sempre nos enroscar? Rebolar? Encaracolar? A aventura de adentrar a dança e ver.

Em dança, ser grande ou pequena não é ocupar mais espaço ou esconder-se. Atentamos a uma superfície e afundamos, atentamos para uma passagem tubular feito a da garganta e inflamos. As mãos e as coxofemurais contornam-se em esquecimento de ser quem os anatomistas nos fazem jurar que elas são para verem aparecer outras histórias de volumes, de formas e de sonhos.

Trazer as mãos à terra, trazer a terra aos olhos. Não como uma imagem que sendo convocada abriria possibilidades criativas ao corpo; sequer como uma imaginação ou um acesso desde os virtuais que conduziriam a presentificação de certas histórias. Mas como um convite à proximidade. A terra que chega as mãos, as mãos que chegam aos olhos dizem que terra, mãos e olhos continuam.

Dancinha amada e acompanhada por gente tão boa, não me convidas a ver a terra que eu diria que conheço – aquela em tons de marrom, aquela em jeito de pó ou lama – não me convidas as abstrações, mas a um certo descolamento daquilo que lhe dá acesso. Trazer as mãos à terra, trazer a terra aos olhos nem como ilustração, nem como abstração, nem como virtualidade; como realidade da materialidade das coisas que vemos nascer com os olhos e da materialidade das coisas que vemos nascer com os sonhos. O coração a dar cambalhotas e atirar-se de trampolins. Do coração ao estômago. Do coração ao pescoço. Ouvir a tua chegada aos tropeços, como quando nos desenhos animados um bicho cresce demais, diminui rápido, corta-se, esfarela-se, até que a formiga está dragão, ou a casa está navio. Reparo contigo que a escuta do movimento porvir vai deixando aparecer as impossibilidades de movimento. É legal ouvir o por aqui não e o ei, vem por aqui. Isso que sendo uma dança, é a vida… Atravessar a rua, escolher laranjas, desviar de uma cantada, desaparecer no metrô. Quando o passado está entre os cabelos, entre os pelos, entre os brotares; continuar navegando a frente remexe as águas de trás. E contigo aprendo que mudar o passado não só é real, como é físico. A máquina do tempo que somos nós. Bicho engraçado. Divertido as vezes e um pouco. As tessituras do corpo que vamos ouvindo com a Sofia lembram que a entrada no tônus próprio, na resistência própria é diferente da força do movimento que exige força de si. A tonicidade específica do que resiste sendo o que é. Uma coisa de distâncias, de por onde entrar-sair, de encontrar com a sonoridade que colabora nesta ou naquela passagem. Continuamos a

 

Rua Voluntários da Pátria, n. 127
Rio de Janeiro, Brasil

Descubro chegar enquanto você se desvenda tendo passado as ruas que passou. Não vejo com os olhos os cruzamentos que deixam nascer estes gestos; o corpo a embalar-se no poder olhar, no poder nascer, no poder parar. Te admiro, dança, enquanto você verseja depois de atravessar no avião um oceano. Nos deparamos com a diferença do ir e do ir. As ruas do nosso Rio de Janeiro, o chão que desconhece o romancear. Que reconhece a gaze, o spray que faz arder o machucado, a lambida que colabora na cicatrização. O que é amar? O que pode ser cuidar? A continuidade da dança ser o que pode ser esquece de agarrar o que ela poderia ser.

 

Rua Professor Prado Coelho, n.20
Lisboa, Portugal

te vejo lembrando-se de si mesma e você diz que vai se comer inteira
e que não acaba

diz que o ver dos olhos nasce
e cria

a realidade deste olho não é a daquele
e o corpo-mundo dos sonhos transparece real

diz que pode partir pra cima das pessoas
(de qualquer forma diz que está perto delas)

você dorme você sonha você acorda você se desloca

você deixa ver como é possível se aproximar e contar uma história
que história?

 

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