documento é feedback

o espaço experimental é um encontro de aconteceres, comunicações, performances, comunicações performativas, transformances, bananas ou como o desejo queira chamar. é um espaço para perguntar, friccionar e abanar os retratos que fazemos do desconhecido, lidando com ele em ato e em surpresa, para além dos moldes da palavra improvisação. nos dias 15, 16 e 17 de junho deste 2018, tivemos a comemoração de 25 anos da eterna criança selvagem espaço experimental que, vejam só, é geminiana, signo que gosta de falar e que traz na constelação o desenho de uma pessoa frente à outra.

a comemoração da potência de perguntar em arte e de se relacionar em fricção uniu o fórum dança e o c.e.m num compartilhamento intenso de processos de criação, de feedbacks e de modos de documentar. é claro que, muitas vezes, os feedbacks confundem-se com os modos de documentar. não nos interessa montar um medidor discursivo que calcule os traços definidores de documento, que contorne a fronteira do documental em relação ao afeto de dizer alguma coisa a partir de e embebida por aquilo que é documentado.

dar a ver o próprio parecer em linguagem, aqui, deseja tocar a materialidade do estar em corpo. pode-se dizer que coloca em questão a subjetividade indefinida e moldável que somos no ser-estar-fazer o espectador ou o performer. o espaço experimental coloca-nos em dança e em fala, não em papéis estanques do que seja um especialista, um leigo ou outras figuras sociais. diga-se de passagem, o blogue do centro de documentação criou também a categoria estado experimental, por julgar que essa dança não se restringe ao espaço – há aí uma potência de modo de vida investigativo, que pode ser exercitado em cada instante da liberdade que me dou.

no feedback a uma comunicação performativa, na ação de fazer conhecida a nuance de um ponto de vista afetado por outro, seja em fala, em escrita ou outro suporte, encontramos também o exercício de experimentar – de sentir com rigor onde é que está a partilha que, na verdade, não é “sobre” nada, mas é “com” o que acompanha, é com o corpo que presencia e que é ele mesmo o outro em performance, é ele mesmo a documentação de um processo de estar no pico, no desconhecido, na escuridão ou na transparência que configuram o sensível.

sobre o acontecimento do furacão dos 25 anos, temos neste blogue um texto do Ezequiel Santos e outro da Laura Vainer. os dois trazem rastos da presença espectadora em contato com o acontecimento, em co-criação com a performance de cada um a uma, e são também respostas aos criadores-experimentadores sobre o que o espectador vê sem se agarrar a pré-definições, sejam elas das folhas de sala ou dos julgamentos unilaterais de valor. é o feedback uma visão que se externaliza, pulsando dentro-fora sem se agarrar aos discursos? há uma grande alegria em poder trazer uma resposta à partilha, pelas areias movediças do que é presenciar em arte.

fica aqui um elogio ao trabalho da escuta, da porosidade em relação ao que não é o mesmo, da permeabilidade ao fazer do outro. um elogio ao espaço que se abre para acolher o que, talvez, jamais venha pronto ou etiquetado, e na sua condição de inacabamento é um encontro comum, é uma forma de nos reunirmos com a arte feita por pessoas-corpo, dúvidas e irregularidades. fica aqui o entusiasmo de poder exercitar a disponibilidade do encontro e do acompanhamento das microvariações deste encontro, no desdobrar da poesia específica que surge de cada um a uma.

bernardo

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