espaço experimental 25 anos – anotações do documentar, dar suporte, e alguns versos

Daqui continuamos a pensar na documentação como suporte, e como ação que acompanha uma criação. Um processo. Uma vida. Pensar-fazer os suportes para a documentação continua a fazer-se como reflexão prática da invenção de um suporte e de um convite de acompanhamento. A consistência da prática de agrupar, cortar, dobrar as folhas. Encontrá-las, cerze-las. A consistência da prática de preparar-se suporte, de preparar o suporte. É leve. Pode ser sugestiva. E é o que se pode fazer porque não se pode fazer outra coisa, e não aquilo que deve ser feito. O que se pode fazer parece andar obscuro enquanto o que o deve ser feito for hipertônico. E quando o que deve ser feito impõem-se a camada do que pode ser feito, a tessitura dos suportes para a documentação começa a poluir-se com os vestígios das fábricas. É muito claro no corpo.

 

dia 1 – 15.06.2018

as histórias de chegada.

estamos prontos
qualificar o tempo:
azul em cor de satisfação

dantes as aves eram amarelas,
e a curvinha da entrada parece em êxtasE

ancorar na embriologia.
as ventoinhas espalham-se nos interstícios.

dança a Luiza Rosa.
(Ajustes)

enquanto voam as andorinhas e espalhafam-se na rua dos fanqueiros os autocarros, pensamos que atravessar processos (de criação) na calçada é um jeito de meter-se a encarar uma linha quando o ver a linha de fora busca seguí-la em jeito de apreender.

Há quem leia
enquanto danças

Há quem chore
Há quem enrole as roupas
E quem passe

Tens mãos de quem respira?
Dirias que escreves (a tese) enquanto andas?

dança a Gabriela Pas.
(Um lugar pronto para te receber)

Ali no fundo da sala diz “escolhas fechadas em espaços verticais”.

O corpo parece ter um interesse em distâncias.

Digo pelo que vieram a ser os olhos em dança. Em contato com o largo entre tu e o teto, o que até deixava a nós, que estávamos contigo ali, às bordas. Enquanto isso você atravessava. É um bocado constrangedor — e isso não há de ter complementos. O espaço constringiu-se, achatou-se. Esse espaço mesmo que tu abrias com a mirada. O entre o céu e a terra apertou-se. Sufoca. Tu estás a convidar-se a uma trajetória? Há um percurso narrativo? Os pontos ancoram a tua pecinha e isso pode ser o que for, mas sente-se constrição. O limite bem delineado.

A pergunta a qual me convidaste como acompanhadora foi: quando é que começa uma criação? O que embala o desejo de criar-partilhar?

dança a Christin Lunt.
(Daily practices – Magic)

Sentir-se desconfortável nas próprias pernas.

Conta-se nos espaços que as atmosferas perpassam as estratégias.

É mais como se fôssemos o espelho, e não como se estivéssemos dentro do espelho.

dia 2 – 16.06.2018

dança o Bernardo Bethônico
(cuecas otávio)

estaladiça aparição
das estranhas aparições que são também os sonhos
concentraçãodispersão, desopostamente.

todas as vezes

que

o braço dobra em contagem

acompanhar a memória
o branco amolece

 

acompanha o mistério e a estranheza

 

o encontrar-se com aquilo que nem sempre se

 

depois daquilo que podemos,

 

dança a Andréia Paixão
(sala de estar “corpo ao manifesto”)

mover-se em testemunho do que se abre
enquanto um contratempo
ganha espaço

ainda por cima desconhecer
um dia no qual as vozes
possam aparecer

dança o João Costa Espinho
as oscilações do enquanto se forma um coração

como se o universo todo fosse sobre o harpejar dos dedos dos pés
e o contrair dos dedos das mãos

densidade de desaparição
e até espaçamento
é um poema condutor

dançar é um aparecer de desaparecer

tás a vibrar…
o quando o corpo dança as formas
de escapar do seu desfazimento . . . . .

1, procedimentos que espalham-se de modo brotante

2, tive a ver um manifesto… e n’alguma hora o que dizemos por aí ser coisa do descartes. uma espécie de “danço-penso, logo existo”.

3, e aquela música: “chão de estrelas” do silvio caldas.

dança a Ana Corrêa, o Carlos Osatinski e o Fernando Nicolás.
(If)

as coisas estão sempre a cair

dia 3 – 17.06.2018

dança a Renata Hardy
(sobre raízes e asas)

Os teus pés começam aonde acaba o teu nariz
Tás a mover ternuras da formação de interiores

— que quer dizer ver-se enquanto desfaz-se?
apareceu esta…

a curiosidade de acompanhar uma dança às vezes (parece) ouve o negativo da dança. as cores que quase ali estão, ou as cores que estão a ser desejadas pela dança em si. vi passar por aqui os movimentos do lagarto…

sobre equilibrar raízes?
sobre contemplar raízes?
sobre ter raízes?

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s