feedback de ezequiel santos aos 25 anos de espaço experimental

———- Mensagem encaminhada ———-
De: Ezequiel Santos
Data: 20 de junho de 2018 às 23:00
Assunto: fide béque
Para: cem <cem@c-e-m.org>

Olá, grandes organizadoras
Já refeito do fim de semana intensivo (para a próxima tomo umas vitaminas), gostaria de dar-vos um feed-back geral e particular com a vantagem de não conhecer as pessoas que estiveram a apresentar trabalhos/comunicações/performances (portanto, maior isenção não haverá).
Em primeiro lugar, uma nota de louvor pela qualidade artística dos trabalhos, destacando-se ainda o facto de todos eles terem investido o factor corpo denotando-se um elevado grau de pensamento ontológico, corpo e diálogo com os sistemas internos e com o espaço externo. Portanto, direcção do cem, os meus parabéns pelo compromisso técnico.cientifico.artistico alcançado.
Depois o elevado grau de escuta activa e de respeito que os participantes tiveram uns pelos outros, ao estar, participar e ao dar feed-back de uma forma muito generosa e sem juízo critico destrutivo. Portanto, direcção do cem, os meus parabéns por saberem trabalhar com ética e transmitir os valores aos outros.
And now… uma forma de feed-back, as pontuações, esperando não meter enganado nos nomes 🙂
-dia 15 sexta no cem
Luiza Rosa: consegui falar com a Luiza e disse-lhe que, para além da percepção do corpo e da ampliação do espaço da rua através do movimento desse mesmo corpo e dos outros corpos caminhantes, consegui localizar o desejo (celular) que ela menciona no seu texto e a sua exteriorização. Como também é tema que me interessa investigar, fica aqui o meu uau.
Gabriela Passos: da bidimensionalidade de um plano, sobrepõem-se planos em movimento proximal num jogo que cria verticalidade e profundidade na relação com o espectador. A luz do projector, afinal, pode ser um bom aliado.
Christine Lunts: pura magia resultante de tanta simplicidade. Absolutamente comovente. A música pode ser ouvida apenas uma vez, porque  a presença da Christine no meio das pessoas é mesmo a encarnação do amor.
Camila Soares: movimento perpétuo para trás, para a sombra psíquica, permanentemente retorcido a partir das omoplatas e da coluna: onde é a saída ou o ponto de chegada? Poderia continuar eternamente.
Ana Corrêa e Júlia Salem: adorei o dispositivo proposto, entre um jogo estruturado e a improvisação, e daí brotava uma metamorfose permanente entre as intérpretes; as propostas sucedem-se dando também a mais valia de deixar que o espectador empregue a sua imaginação numa possível resolução dramatúrgica dos desafios.
-dia 16 sábado no fórum dança
Bernardo Bethônico: de dentro do corpo do Bernardo brota uma delicadeza milimétrica que o transforma numa folha de papel, num insecto leve e revoante que preenche todo o espaço com uma força sem qualquer esforço.
Kim Baraka: um estudo atraente e divertido sobre o tapar e o destapar onde existe ainda  a liberdade na possibilidade de escolha: conseguir ainda o grau zero de interpretação nas acções de despir a roupa e atirá-la ao chão e reforçar a expressividade de um ballet dançado dentro do edredon (é uma imagem genial); tapar ainda mais o corpo e mostrá-lo nu.
Andreia Paixão: é interessante como a impaciência inicial vivida no movimento de um corpo transita e se instala num espaço; há enorme potencial para desenvolver uma performance/palestra.
João Costa Espinho: já dei feed-back ao místico.
Fernando Nicolás Pellicioli & Carlos Osatinsky & Ana Corrêa: gostei muito da energia da dupla internacional e achei muito interessante este estudo sobre a tensão e a resistência. E de como a partir de um trabalho físico se cria uma leitura imaginária na relação com os objectos em cartão: a tensão transita para a diferença de escala afirmando um território em que corpos gigantes se parecem mover numa cidade (Godzilla em dança contemporânea)
Jogo de Fernando Ramalho: enorme potencial para uma acção no espaço externo, e o divertido que é. Aqui, estou com a Sofia: um castigozinho tornava o jogo mais jeitoso.
-dia 17 domingo no cem
Renata Hardy: não vi, enganei-me no horário 😦
Gabriela d’Angelis: uma bela proposta sobre a lentidão e de como um corpo nos ajuda a
ouvir o espaço com tanta claridade, subtileza e sensibilidade. Pode durar 3 ou 4 vezes mais tempo, para mim, é uma figura de um quadro neoclássico que desce da tela e se passei pelos séculos, é lindo.
Sebastião Soares: muito poética a relação com o plástico (quem diria…) porque nos ajuda a ler os limites, o lugar em que a energia se colapsa em linhas de espaço. Informado na tradição da performance brasileira de ’60 e ’70 é muito actual e escultórico. Apetece que alguns momentos se prolonguem (entrada inicial na superfície de plástico no chão, corpo tornado escultura a receber luz da janela) e que outros se definam (o pisar as bolhinhas é para criar som ou é acaso?). Simultaneamente apaixonante, plástico (no duplo sentido) e divertido.
Coline Gras: os 5 segundos finais são geniais: condensam dramaturgicamente toda a atmosfera e organicidade anteriores numa presença simplesmente generosa e luminosa que é com tanta entrega ao momento. Parecia que o movimento vinha do interior das células em direcção à luz que entrava pelas janelas.
Júlia Larama: uma presença muito plástica e escultórica e que pode expandir a relação com o som a ponto de a tornar ainda numa sinfonia de encontros e desencontros. Potência de vida e de expressividade.
Sofia Osório: a acção da Sofia torna-nos cúmplices num movimento espiralado que cria a ilusão de um buraco, a partir de nós, espectadores sentados em círculo, e que quase a vemos desparecer. É uma proposta em parafuso.
Inês Ferreira: a Inês deu-me a ilusão camaleónica de se poder transformar em múltiplos corpos e múltiplos lugares, e aqui fez uma descida ao inferno e voltou.
Portanto, se isto foi assim, daqui a 25 anos chegarão à Lua.
Gracias del corazón,
ez

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