Vertical (e balanço)

21 de maio de 2018

Sofia convida a balançar em diferentes cadências – três passos para frente, três passos recuando, quatro, dois, um, cinco…o que é que essa cadência me ensina? Vai e volta – que é sempre um ir, um seguir adiante – um ouvir o que se está elaborando com os outros corpos. Sinto algo como se o balançar para frente e para trás nos envolvesse num corpo só, que respira e que pulsa. Meus pensamentos foram rapidamente para o dia 6 de outubro do ano que passou, logo no início do Risco, quando Mariana e Sofia, na mesma tarde, me procuraram em dança para saber qual era a minha pergunta naquele dia. Eu me lembro que fui levada ao baloiço pela Mariana, e essa sensação contaminou tudo o que eu experimentei em corpo naquele dia e nos dias que se seguiram. Tão forte essa coisa do peso sendo levado pelo arco do balanço, a coluna soltando aos poucos, os cabelos no vento. Falar de cima do balanço, perguntar, conversar…Lembro-me de perguntar para a Sofia momentos depois sobre que dança era aquela, que acontecia no arco do movimento na sala branca, que para mim era muito parecida com o arco do baloiço. Explico: para mim, o movimento era como que o trajeto arqueado do baloiço, enquanto que os momentos em que o baloiço parecia parar no ar para mudar de direção equivaliam aos momentos de escuta-afinação-decisão para mudar para uma outra coisa-movimento.

Desenhei no meu caderno naquele dia:

caderno da camila soares

Aquela rápida suspensão do corpo no ar antes da transição, isso me encanta até hoje. Em corpês, penso que esse tem sido um dos meus exercícios desde então. O empenho tem sido no sentido de sentir essas suspensões e ouvir o que é que o meu corpo quer dizer, ou, para onde é que será o próximo arco de movimento, sem sobressaltos, sem separar os caminhos do corpo e os caminhos do pensamento. Nesse arco eu me pergunto sobre o tempo, sobre o ritmo, sobre o espaço, sobre o trajeto que se desenha no espaço-mundo quando me movo, e coisas do tipo. Nesse balanço eu consigo me dar conta do ar à minha volta, percebo-me tridimensional, redonda, suculenta, volumosa. Sei que no baloiço estou dançando, e não estou sozinha.

Nesta segunda dia 21 de maio o baloiço da pergunta da Sofia reencontrou o baloiço do dia 6 de outubro de 2017. Nesta segunda feira dei-me conta de algumas das perguntas que ainda perduram no meu corpo e que têm sido tecidas no entre de todos os nossos corpos que ali estavam (estão) em dança.

 

Camila Soares

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