Para Maruan. Desde uma dança com a Catarina.

Lisboa, 06.abril de 2018
Lisboa, 16.abril de 2018

Maru ,

No dia 06, que era uma segunda-feira e que, em alguma curva do corpo parece que passou a menos de dez dias, dançamos aqui na sala branca do c.e.m na escuta de um convite do corpo-dança da Catarina. Não me lembro se vc chegou a conhecê-la… A Catarina, pelo o que tenho ouvido dela, tem dançado-pensado o corpo água, e as águas no corpo.

Lembras da sala branca? Pois abrimos as travessias na sala indo em direção ao lado que é mais próximo da Praça da Figueira. O lado do rio Tejo, foi o lado da partida. Lembro da Cata ter-nos convidado a retornar pelas beiras da sala, embora isso nunca tenha acontecido. O que aconteceu foi que atravessamos uns 40 minutos até chegar àquela parede misteriosa que podemos chamar frente da sala, mas que, quando percebemos a sala na cidade, podemos chamar também de Praça da Figueira, de loja que toca os Fados, de curva do elétrico –– a sintonizar camadas de escuta… A tal consideração de que a sala branca não começa nem termina naquela parede. Vai saber o que é um começo e um fim em termos de localização… (ando às voltas com esta pergunta nas redondezas do pescoço — fecha parênteses).

Dançando o convite às águas com a Catarina, o corpo fez-se um volume de água. Uma grande novidade. Porque logo lembro-me das danças de água com a Ignez, na UFRJ, e de mover junto a imagem do corpo como duto de passagem para as águas.

Vês?

Corpo volume de água.
Corpo duto de passagem.

Esta ideia — que é imagem, que é filosofia, que é um mundo — do corpo como recipiente, tem assustado as coisas por aqui. E tem iluminado também. Entrar nos estudos do corpo é sempre inventar o corpo. E estes corpos laura que vão-se dançando aqui em Lisboa acenam para longe do ser-recipiente. E engasgam entre caminhos, também. O descobrir a dança que não é por partes: agora estou a mexer os pés. Agora mexo os ombros. Agora vou rápido. Agora vou devagar. O mais difícil, em termos de atualizações de apps corporais (rs), é deixar a intelectualização para outro momento. Sabes aquilo das práticas de corpo e movimento que costumávamos chamar scanner? “Vamos fazer um scanner do corpo que começa — whatever — pelos dedos dos pés e vai subindo, passa dos tornozelos, joelhos, tá tá tá” … ? Construção de imagem corporal desde a percepção sensorial (¿) No entanto não vamos ser capazes de estar, deste modo, em todo o corpo. No corpo como um todo. Que não há velocidade palavra minutos, parece, pra chegar em tudo. E o tudo já está a ser t u u u do , e t.u.d.o, e t – —- u do …, a cada agora.

E é muito curioso acompanhar o corpo com os buracos que a experimentação e o estudo de um corpo em fragmentos ajudou a criar. Aparece um pescoço de primo desossado da Vaca e o Frango (manja? o desenho?), um pedaço pelo lado das costelas da esquerda que parece lanhado por um urso, uma perna direita que inventa os próprios recheios desde o contato entre a pele do chão e a pele do pé… E na dança com a Catarina, o tal corpo-volume-d`água ouvia-se como um bichinho inteiro. E da quietude acelerou-se e foi ser um traátátátátátátátá — a turbulência imóvel que tu dizes é coisa dos pensamentos sem espaço pra mover? Não sei se sabes, mas tenho manias de traduções. Entre as línguas das pessoas…

Alecrim é uma amiga que cheira ao que eu achava que eram as nuvens quando era criança. Uma relva suspensa. São lindos os banhos. Des-assustam o coração, parece. E colaboram nisso que tenho ouvido com a Sofia que é o criar espaço desde o entre. O aprender a criar espaço para dentro. Sinto muito claramente alecrim como amiga na criação de espaço para o coração. Porque fazemos ideia de para onde estamos indo, em termos de caminhos da humanidade no mundo. Vc faz ideia do que é caminhar pelas ruas do Rio… E lutar aparece todo dia, amigo. Ser front na guerra têm formas. O corpo sabe porque vai parar onde pára. Difícil pode ser acompanhar o caminho das linhas que se tecem entre corpo e mundo quando há tanta bomba explodindo. Acho que é esse o nosso trabalho também. Nós tais artistas. “Artista igual pedreiro…” É o título de um álbum de música e é uma constatação. As mãos na massa dos dias.

Aquela dança com a Catarina acabou mais afim das águas doces do que das águas salgadas. Mas achei imensamente uhul tu ter falado do mar. É que essa sintonia em ondas de comunicação é muito fixe. Não vês que me ligaste naquele dia logo depois que li teu email? Rs. Acharam o livro branquinho que foi pra Raquel? Tu larga de ser elza ! Não vai sumir com o livro da garota !

um beijinho de quem começa meu amô,

laura

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