Espaço Experimental, 28.3.2018, Bichano

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

Emily Dickinson

 

Os gatos são criaturas que fascinam ou metem medo pela sua forma misteriosa de ser. Num caso a sua presença é suavidade, noutro é traiçoeira.

O mesmo poderia ser dito se quisermos acompanhar de perto a feitura de nossos próprios enunciados de pessoas que dão feedbacks ao mundo. De que lugar interior cada um deles provém?

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O lugar do eu no modo como falo é escorregadio. Quem é esse que está falando? É aquele que aparece quando fala com não sei quem ou se coloca em dada situação.

Já sei que esse que fala agora não é o mesmo dos outros que podem aparecer em condições de produção igualmente específicas. Condições diferentes na radicalidade de suas delimitações, às quais muitas vezes sou impelido a responder.

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Está claro que as retóricas de consumo jogam justamente com a fragmentação que é ser um eu. A instabilidade tornou-se uma das chaves do neoliberalismo. Lá onde ele joga com o cotidiano de nossas corporeidades, podemos cada vez mais ser muitos. Tava lendo isso em O circuito dos afetos, do Vladimir Safatle.

O que é ser outro em tempos que julgamos ter toda a liberdade para sermos “outros”? Quem é o outro? Esse que tem cheiro e pele. Esse que aparece por aí. Ou aquele criador.

E se eu fosse o outro que não pode ser nada além de um outro? Um ninguém. Aquele sujeito que faz coisas que não sei, aquele performer que. Eu me sinto, eu fiz, parece-me que, no dizer o que eu acho do trabalho do outro, que aqui sou eu.

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No Brasil a brincadeira de desenrolar uma linha diz-se cama de gato. O jogo aqui era justamente se enrolar. As linhas em tensão entre uma parede e outra, linhas brancas de costura, são fáscias ampliadas na suavidade de sua fina matéria conectiva. Eu me embaralho nelas por um desespero agradável.

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Soltei o bicho, o monstro que não obedece e deixei a sombra passear. Banhei-me na vida que circula, na beleza das veias que se desenham no estilhaço de um vidro. O bicho implica transformar, é metamorfose. É da esfera da nossa relação com a morte. Uma morte que não impede nunca de dançar.

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Lembro que muitas danças-mundo são para abanar as poeiras dos antepassados, irrigar a memória dos nossos velhos com o frescor do atual.

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Preparo trilha sonora noise para escorrer pelo espaço, começando pela parede, veja só. Agora é que é.

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Encontrei o desenho da mulher, homem, pessoa. A minha coisa ecoando no trans que todo corpo de repente tem, a dor de não encaixar. A dança na penumbra que traz o olhar para casa, ainda que esteja fora dela. A frontalidade do olhar em paisagem claroescuro, paisagem constituição do aqui e do ali. Apontar é sempre um ato que envolve o imaginário no espaço, já dizia o Steve.

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A importância de não se colocar numa caixa, mas ao mesmo tempo a urgência de definir o próprio espaço, dar-se lugar para redefinir-se nos traçados das veredas-corpo.

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Coisas que aconteceram

Catalina Lescano e Dally Schwarz, Feed the Cat

Ana Correa, Cat´s Craddle

Dally Schwarz e Marcos Aganju, pulso-pulsaçãoesfregarcorpo-ruído-pulsação-pele-tambor-céudaboca-pulso-palatomole-soltar-ruído-pulso-pulsação-peso

Camila Soares, Bicho

Chiuzo Hayz, Side C

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Site recomendado pela Catalina: everybodystoolbox.net

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