Espaço Experimental, 24.2.18, Ver-se vendo

Mas sei que tudo é proibido, aliás
Eu queria dizer que tudo é permitido…
Quando ninguém nos vê
Belchior, na voz de Karina Buhr

Quando se relacionar está claro, quando está claro como se relacionar, podemos passear a atenção. Talvez possa até me desligar de me relacionar, para puxar um fio de cabelo, talvez. O pacto nos diz como assentar. Na unanimidade de como devo me portar, é possível desempenhar um papel de público-alvo, de consumidor e de cidadão. Assim foi dito em muitas versões.

A Filipa diz que, quando já sabemos o que deve ser feito, apagamos alguma coisa preciosa dentro da gente numa espécie de confiança no piloto-automático. Acontece facilmente. É possível saber o que deve ser feito e ainda assim continuar respirando, sem meramente se dobrar ao tal dever ser? Sem se despedir de ser. Que ser é um trabalho, sim, um trabalho outro. Podemos ter uma lista coreográfica que é realizada rigorosamente no estar honesto de um reencontro. E simultaneamente poderíamos ter uma abertura para sabe-se lá o quê.

Por que o lugar de explicar o que faço é tão instituído e preferido, enquanto é deixada de lado a experiência da coisa que fala por si no silêncio do criador-algo?

Para que façamos o social, algumas coisas são designadas com a etiqueta “experimento”. Há aí algo implícito, que cada um pode ver como vê. Tenho sentido a experimentação como um estado de paz com a falta de garantia. É um abismo ao sabor da pergunta de cada um. Ao contemplar-presenciar uma experimentação, lidamos com um rumo que só pode ser interrogação – mas quando é que a arte não será isso, no seu volume máximo, no todo do corpo-existência?

Todos temos boca para perguntar e a boca não é artística e muito menos civilizada. Ela boceja, morde e chupa. É desse lugar que exercitamos a fala de um feedback. Diante desse algo que tanto pode ser um longo processo como uma singela tentativa, pode ser que eu me coloque como alguém que chega e ensaia também, no lugar do espectador. Experimento: olhar e presenciar e falar disso.

O público-alvo-consumidor-cidadão, por sua vez, parece mais ligado ao comprar e ao de alguma forma não presenciar, não ser inteiro, pois nessa outra lógica do pronto, do já-fizeram-pra-mim, do que ultrapassa o dito experimental, sempre pode-se adquirir mais. Faço a avaliação do produtor que poderia ser chamada de feedback também, mas no prazer de consumir, comer, gastar alguma coisa, para me dizerem “você também vai gostar desse, é mais do mesmo, é dança contemporânea, é teatro físico”. E é tão sutilmente que posso alimentar isso que talvez nem dê por mim. O fato das pessoas serem sempre processos fica sabe-se lá em qual plano.

O fato das pessoas serem processos, na verdade, não tem plano. Está em toda parte. Nos ajuntamos todos os meses nesse tal de Espaço Experimental e isso ajuda a re-olhar tamanho caos que é ser-estar junto. “Eu sozinho não vou lá.” Pode ser que eu queira sintonizar se estou mais para público ou mais para ecoador do que vejo. E, quem sabe, pode ser que eu me sinta convidado para ser coro dessa coisa. Entretanto, nada disso aqui ocorreria a partir de uma introdução. Será possível, o impossível?

Convidar alguém pode ser feito de tantas formas que muitas vezes os humanos preferimos deixar isso para as convenções. Mas o querer dizer algo e compartilhar isso é cheio de reentrâncias, faltas e selvagerias. Pensar sobre como me relaciono, como me aproximo e como me distancio tem sido vento, coragem, vida e permeou as experimentações e os feedbacks desta noite.

 

 

* experimentácias

partilha de materiais – exposição do Departamento de Arte Corporal da UFRJ

Steeve – bastidores duma estrela do new rock circense xamânico – Barthelemy Gueret

exercícios para despoluir o amor – videoperformance, 11´, RJ, 2016. Laura Vainer

daily practices no 4: winter takes it all – Christin Taul

algum tempo de novo… — Dally Velloso Schwarz e Júlia Fernandez

 

 

bernardo

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